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Francisco Whitaker e Augusto de Franco compartilham experiências
Para mostrar seus "Olhares sobre a Sociedade em Rede" Francisco Whitaker e Augusto de Franco foram convidados a iniciar as atividades do segundo dia (20) do Seminário Redes e Desenvolvimento.
A notoriedade e experiência dos palestrantes foi responsável pela superlotação do auditório nobre do Senac São Paulo, que promove o evento em parceria com a Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL). Este ambiente de troca de informações e sobre a temática das redes e sua relação para a promoção do desenvolvimento social termina no dia 21 de julho.
O objetivo central do debate sobre sociedade em rede é trazer à tona uma nova estrutura social que nasce na sociedade da informação. O moderador, Andres Falconer, coordenador executivo da ABDL, lembra que o fenômeno das redes sociais não é algo novo, mas que "com o salto tecnológico decorrente do crescimento do acesso aos meios de informação e comunicação ocorrido nos últimos anos, em especial com o advento da internet, aparece como um combustível na consolidação de uma sociedade em rede".
Francisco Whitaker, membro do comitê gestor do Fórum Social Mundial (FSM), traça a linha histórica e de significado da palavra rede. "Vou partir do fato de que ela tem várias acepções, tem a rede ferroviária, a rede elétrica e também a rede de dormir. Se pensarmos nesta rede, lembramos que ela tem dois ganchos de sustentação. Se um deles cai, a rede cai", diz Whitaker, usando a metáfora para elucidar o que vê como uma estrutura social dependente.
Ele destaca que devemos tomar cuidado com as palavras e com a forma como as usamos, porque uma mesma palavra pode ter sentidos diferentes. "Não montamos redes, trabalhamos em rede, por exemplo". Para ele, pensar na palavra rede como forma de organização é pensar em uma forma diferente de se organizar, oposta a da organização social tradicionalmente piramidal. O importante da rede é a distribuição de responsabilidades. "Redes sociais partem do conceito básico de horizontalidade, como uma malha, fios ligados horizontalmente, sem ganchos de sustentação".
Para Whitaker, a emergência das redes começou há 40 anos e se deu de baixo para cima, como uma revolta em todo mundo contra a imposição. "Na França temos o famoso maio de 1968, quando aconteceu uma grande manifestação estudantil. Eles chamam este momento até hoje de os 'acontecimentos'. No mundo todo estava acontecendo algo novo na maneira de superar o autoritarismo", conta, acrescentando que na década de 1970 as coisas amadureceram e surgiu uma proposta de organização política em rede.
Por outro lado, ele critica o fato das coisas no Brasil serem tratadas como moda, o que banaliza a noção de rede. "Agora, todos se autodenominam redes; ainda mais com a internet. É uma pena, pois nos faz perder uma potencialidade, uma perspectiva de mudança que é extremamente rica. Perdemos a chance de mudar a nos mesmos." Whitaker considera ainda que as redes são importantes porque nela todos são sujeitos autônomos que participam por motivação própria, não por obrigação ou hierarquia.
Ele avalia também que existem entraves à realização plena das potencialidade de uma rede. "Ela precisa acabar com verticalismos. Não pode concentrar informação e as pessoas devem ter livre participação, respeitar a diversidade, superar disputas pelo poder - característica motivadora do modelo de pirâmide -, deve desenvolver a co-responsabilidade, a construção coletiva e a cooperação. Não deve existir um líder, mas sim facilitadores e animadores." E acrescenta: "Se uma rede não persiste é porque ela não é mais necessária. Não tem mais função social."
Whitaker responde a uma pergunta em tom provocativo sobre o porquê do evento, dizendo que "se conseguirmos encarar as redes como formas de trabalhar, o seminário terá sido um sucesso" e propõe a criação de um Fórum entre redes para intercâmbio de experiências. "Nesta sociedade é um grande avanço, uma bruta mudança. Eu diria que a rede é a grande novidade do século XXI. A experiência no FSM alimenta minha crença nisso. A rede, horizontalmente, conquista mentes e corações", conclui.
Rede de Conexões
Para Augusto de Franco a sociedade está mudando sua concepção própria e a velocidade é muito importante na forma como o relacionamento humano acontece. "Ocorreu uma mudança na forma como vivemos, como nos relacionamos e a tecnologia é conseqüência", diz, lembrando que a sociedade sempre foi uma rede, mas não se via como tal e não fazia as conexões necessárias para gerar desenvolvimento. "Podemos dizer que a sociedade mudou muito, mas digo que foi mais do que isso. Nossa visão sobre a sociedade mudou."
Sociedade, explica Franco, é um conjunto de relações, não apenas de indivíduos. Essas relações são conexões. "O ser humano tem que encarar sua dualidade. Ele é tanto individual, fruto das experiências próprias, como coletivo, resultado do fluxo de conexões sua com o outro. Quanto mais conexões você faz, mais você horizontaliza."
Augusto de Franco é coordenador geral da Agência de Educação para o Desenvolvimento (AED) e o grande difusor do conceito de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (DLIS), uma nova estratégia de indução do desenvolvimento que facilita e potencializa a participação coletiva, integrando áreas dispersas como uma estratégia de investimento em capital social. Na plenária, ele apresentou as relações entre os termos do seminário e seus conceitos e colocou questões aos presentes. Para ajudar a respondê-las, indicou bibliografia que julga relevante.
Franco compara outros termos: social é igual rede social. "Rede social existe desde que existe a sociedade e o homem reconhece sua dualidade. Ela é perturbada por organizações hierárquicas e modos autocráticos de regulação." E segue: "Rede é igual a capital social. Rede é fluxo, ela só existe quando flui".
Depois coloca as perguntas: como o trabalho em rede pode induzir o desenvolvimento, a melhoria da qualidade de convivência social, como induzir o desenvolvimento através do fluxo da rede? Para Franco, capital social e desenvolvimento em rede são a mesma coisa. "A comunidade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo", cita uma frase que lhe inspira e dá sinais do crescimento do capital social e, conseqüentemente, do desenvolvimento. "Desenvolvimento, Rede e Democracia são coisas inseparáveis", conclui.
Juliana Rocha Barroso
Matéria originalmente publicada no Portal Setor3
Ouça o áudio e veja as apresentações usadas pelos palestrantes deste dia - A Sociedade em Rede - clicando aqui.
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