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Reflexões de um agnóstico acerca de Yom Kippur

Yom Kippur é o dia mais sagrado do ano judaico, quando mesmo aqueles que não praticam a religião e não observam seus preceitos, freqüentam a sinagoga e comungam no ritual com a comunidade. Significativa a este respeito é a oração inicial que, repetida por três vezes, proclama: ... “autorizados pelos poderes celestiais e terrenos, permitimos a presença daqueles que se afastaram (marranos, conversos) do judaísmo”, uma demonstração inequívoca do espírito de tolerância e perdão que permeia esse dia festivo.

O que motiva aqueles que freqüentam a sinagoga e assistem às rezas ao longo de um dia de jejum? Curiosamente, o livro de rezas (Machsor) não prescreve o jejum, mas exorta para ...veinitem et nafshoteichem, “martirizareis as vossas almas”, o que as normas rabínicas interpretaram como ordem de jejuar. Acrescenta-se à injunção uma advertência: “... porque neste dia, vocês serão julgados, purificados e perdoados de todos vossos pecados”.

A noção de pecado e sua expiação são centrais na História da civilização ocidental, de raízes judaico-cristãs. O ser humano seria frágil e pecaminoso, desde sua expulsão do paraíso (Gan Éden). Mantendo e reforçando o sentimento de culpa, os donos do poder, em todas as épocas, exerceram um controle ferrenho sobre os corpos e as mentes de seus súditos.

A imputação de culpa, por supostas ou reais transgressões das normas e leis, evoca também a noção de um julgamento do qual não existiria escapatória. A liturgia lembra o ritual de uma corte de justiça implacável, em que são julgados todos os seres por seus atos. Por isso, denomina-se o período entre o primeiro e o décimo dia do mês de Tishrei, de Iamim Noraím – dias temíveis. No primeiro dia, a sentença será proferida e inscrita, e no décimo, será confirmada e selada “quem irá viver e quem morrerá, pela espada, pela fome, pelo fogo, pela água...” Não haveria apelação ou recurso contra a sentença rigorosa? O livro de orações ensina “... o arrependimento, a oração e a prática da justiça (ações de caridade) poderão alterar a severidade da sentença”.

Outra oração marcante, além da “autorização” inicial, é o Kol Nidrei, em que todos os votos, promessas e juramentos são declarados nulos e prescritos. Esta oração foi a causa dos gentios acusarem os judeus de não serem confiáveis, por não cumprirem suas promessas. Retirada durante a Reforma, esta oração foi re-introduzida para aliviar a consciência daqueles que “prometeram” sob as ameaças de perseguições e torturas da Santa Inquisição. Parte importante das orações de Yom Kippur é constituída pelas confissões – o Vidui de pecados, intercaladas por súplicas de perdão. A natureza dos pecados não é configurada por transgressões individuais. Referem a atos coletivos de fundo ético e que implicam em responsabilidade coletiva. Após cada confissão é entoado o canto “... e será perdoada toda a comunidade de Israel e, também, o estrangeiro que habita entre eles”, uma injunção válida e oportuna também em nossos dias.

Além da liturgia, o Yom Kippur enseja a oportunidade de se fazer um balanço dos ativos e passivos de nossas vidas e de perscrutar os mistérios da vida humana. Afinal, quem somos? Donde viemos?Aonde vamos? São as eternas indagações levantadas pelos seres humanos desde sua aparição na terra. O poeta Yehuda Halevi, que vivia na Espanha na época de ouro, no século XI, nos exorta a “... penetrar no fundo da alma, concentrar-se e refletir acerca do mistério da criação ...”

Os cabalistas respondem com uma metáfora: o mundo todo seria uma ponte, uma ponte muito estreita. Donde ela vem? Não o sabemos. Aonde ela leva? Tampouco o sabemos. Entretanto, viver é atravessar a ponte. É na travessia coletiva que os indivíduos encontram o sentido de sua vida. Em um mundo de incertezas e de imprevisibilidade – já dizia Marx: “... Tudo que é sólido, se desmancha no ar” – aprendemos que o destino de cada um é inexoravelmente ligado ao destino coletivo.

Jean Paul Sartre ensina que “os homens nascem para serem livres”. Mas, liberdade significa também responsabilidade pelo que fazemos e deixamos de fazer, exercendo nosso livre arbítrio. Erich Fromm fala do “ter” – a busca insaciável de bens materiais – em oposição ao “ser”, a harmonia e paz de espírito por comungar e compartilhar com os outros. Um filósofo asteca nos deixou a seguinte mensagem, gravada nos muros do museu antropológico da cidade de México “... como hei de irme assín? Nada quedara de mi nombre en la tierra? Al menos cantos; al menos flores...” E, o escritor norte-americano, Chaim Potok, relata um diálogo entre pai e filho, sobre o significado de suas atividades políticas, questionadas pelo jovem. O velho responde com a seguinte metáfora: “comparando a nossa passagem pela terra com a idade cósmica do universo ou de nosso planeta, a duração de uma vida humana não é mais do que um “piscar d’olho”. Mas, mesmo este piscar d’olho deve buscar e encontrar o seu sentido “.

A tensão dialética entre a responsabilidade individual e coletiva – o livro de orações ensina que “... todo o povo de Israel é responsável, cada um pelo outro” – só pode ser superada na busca e afirmação da identidade. Sentir-se apoiado e amparado pela comunidade é a saída para o indivíduo e os desafios que enfrenta na interminável busca de um sentido para sua vida. Manuel Castells, numa palestra proferida recentemente no Chile, define a identidade como o processo pelo qual os atores sociais atribuem sentido a suas ações, com referência a algum atributo cultural que os caracterize. Castells afirma que as identidades culturais constituem o princípio básico sobre o qual se articulem a organização social, os sentimentos de segurança pessoal e a mobilização política – fontes permanentes de conflito, devido à multiplicidade de identidades.

Amartya Sem, em sua definição de “desenvolvimento como liberdade”, refere à liberdade de opção individual e coletiva. Seu crescimento se realiza mediante a participação social, mediante a construção de redes de confiança mútua e de capital social, pilares dos sentimentos de identidade e de pertença.

No turbilhão de transformações sociais de nossa época – migrações, urbanização, industrialização e globalização da cultura – a tábua de salvação estaria na identificação com e a pertença a movimentos e aspirações coletivos. Cabe a cada indivíduo a responsabilidade de não resvalar para o fundamentalismo religioso, o fanatismo político ou o nacionalismo extremista e xenófobo. Para sobreviver em nosso mundo conturbado, é mister encontrar e reafirmar a nossa identidade, uma identidade irmanada a todos os seres humanos, fiéis ao espírito e as palavras do profeta Isaias ”... e será nos últimos dias, quando os povos não mais guerrearão e transformarão suas espadas em arados ...”

Na mesma época de Isaias, no século VI a.C., Anaximandro de Mileto enunciou a noção do Direito para o mundo natural e social. Os elementos da natureza sofreriam pelas injustiças cometidas no mundo. Nascia, assim, a visão filosófica do cosmos – uma ordem justa na comunidade e na natureza. A crença na idéia da Lei e do Direito levou o pensamento grego a projetar no próprio universo a imagem do cosmos sócio-político, no qual deveriam prevalecer os princípios de igualdade e justiça, impostos pela Lei. Cerca de 2500 anos depois, as idéias de Anaximandro recuperam seu pleno significado: os desequilíbrios vigentes na sociedade geram desordens na natureza que, por sua vez, refletem as injustiças da vida social.

Desde o Renascimento, a Ilustração e, sobretudo, a segunda metade do século XX, ganhou força a visão e a consciência de que vivemos em um mundo só. O nosso planeta Terra é um espaço biofísico e social que pertence a todos os seres humanos, aos quais cabe a responsabilidade de zelar e proteger o patrimônio comum, constituído pela biodiversidade e a infinita riqueza da diversidade cultural.

Inspirado por Anaximandro que vislumbrava um mundo só, completaria: sim, um mundo só, mas que seja um mundo justo ou não será nosso mundo!

31 de Outubro, 2003
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