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Retomando a discussão sobre meio ambiente e desenvolvimento
As alterações da natureza em conseqüência de atividades humanas são socialmente produzidas e se propagam sob forma de catástrofes sociais da natureza, com efeitos praticamente irreversíveis.
Os nexos ecológicos são ignorados sistematicamente pelos grupos de poder, o que exige uma reformulação das relações entre a dinâmica socioeconômica e os fenômenos naturais.
A sociedade está em processo permanente de metabolismo com a natureza. Os homens transformam a natureza através de suas atividades portanto, para que não ocorram catástrofes, precisamos de um organização racional da sociedade capaz de evitar a exploração dos recursos naturais até sua exaustão. Contudo, não basta racionalizar o metabolismo entre os homens e a natureza. Para alcançar este objetivo é preciso estabelecer relações sociais que atendam às necessidades básicas e eliminem as carências gritantes que afligem a maioria das sociedades contemporâneas. Porque, em última análise, a dominação irracional sobre a natureza reflete atitudes e comportamentos irracionais dos homens sobre os homens. Esta dominação, sempre irracional e destrutiva, representa relações de poder historicamente irrefletidas.
Nas sociedades agrárias pré-capitalistas também se praticava a destruição dos recursos naturais, mas com impactos localizados e limitados. É a modernidade que suscita catástrofes sociais da natureza, em profundidade e escala planetárias.
A destruição do meio ambiente em grande escala é o resultado de determinada forma de organização social que está na origem do processo de metabolismo destrutivo entre a natureza e as relações sociais.
A irracionalidade dessas relações está refletida tanto no plano macro do sistema econômico e social, quanto no plano micro da economia industrial das empresas. No plano macro, a corrida incansável atrás da valorização do capital e da competitividade leva a formas e conteúdos de produção e consumo ou seja, um estilo de vida, incompatível com as carências sociais e o requisito de conservar os recursos naturais. Entre os casos mais gritantes é possível apontar para os assentamentos irregulares nas áreas de mananciais; as aglomerações concentradas da população em megalópoles; o transporte individual em vez do coletivo, todos com impactos negativos no meio ambiente e, portanto, no convívio humano.
Em nível micro das empresas, a concorrência e a corrida por mais lucros, mediante a redução de custos e aumentos de produtividade - independentemente da qualidade dos produtos ou da adequação de tecnologias, invariavelmente resultam em efeitos destrutivos na natureza e na sociedade.
Os custos não são efetivamente reduzidos, mas transferidos para a sociedade sob forma de desemprego, pobreza e marginalidade no ambiente social e sob forma de poluição do ar, das águas e a erosão do solo no meio ambiente natural. Em última análise, essas transformações destrutivas afetam também as condições climáticas e põem em risco a sobrevivência da espécie humana e da própria vida no planeta.
Uma retrospectiva dos últimos dois séculos mostra que o ritmo e a intensidade das catástrofes naturais sofreram aceleração acompanhando a expansão da industrialização, particularmente nas últimas décadas do século XX. Secas, enchentes, vazamentos de grandes quantidades de petróleo no mar e acidentes em central termo-nucleares evidenciam os limites ecológicos do sistema, enquanto o alastramento da fome, do desemprego e da pobreza em escala global assinalam seus limites sociais e econômicos.
Tanto as chuvas e enchentes quanto a falta periódica de água são provocadas por mudanças climáticas, causadas pelas emissões de gases do efeito estufa, tais como CO2, SO2, CFC e outros. Todo o sistema de produção industrial moderno e seus produtos – aço, cimento, vidro, alumínio, máquinas e equipamentos, fertilizantes e pesticidas – tendem a aumentar a temperatura da atmosfera terrestre.
O clamor por tecnologias mais apropriadas e formas de “produção mais limpa” não tem induzido mudanças nos padrões de consumo da população, nem no comportamento das empresas que contam com a conivência ou omissão dos governos. Tanto governos quanto empresas parecem ignorar a natureza “perversa” do sistema de produção capitalista que, em sua corrida atrás da competitividade e lucros, parece incapaz de internalizar em sua contabilidade os custos de destruição do meio ambiente e, menos ainda, os custos incalculáveis da desagregação social em conseqüência do alastramento da pobreza e da marginalidade.
A prática tradicional de externalizar os custos tem criado uma situação de “insolvência” crescente. Nenhuma instituição tem capacidade de absorver esses custos e enfrentar os problemas deles decorrentes, alterando radicalmente os padrões quantitativos e qualitativos de produção e consumo. O re-equipamento das indústrias com tecnologias alternativas, embora tecnicamente possível, afigura-se economicamente inviável por reduzir a margem de lucro, inadmissível num período de crise econômica e financeira que atinge a economia mundial. Neste contexto, a preocupação com o clima e a proteção da natureza são consideradas como um “luxo”, enquanto os problemas da pobreza e da marginalidade são transferidos, na melhor das hipóteses, às organizações filantrópicas e de caridade.
Paradoxalmente, quando as manifestações da crise ambiental e social se tornam mais agudas, surgem vozes em defesa da produção industrial capitalista (vide Björn Lomborg – O Ambientalista Cético, Ed. Campus, Rio, 2002) afiançando que o progresso de ciência e tecnologia irá responder aos desafios do desenvolvimento.
Contudo, ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Ao contrário, máquinas, equipamentos, os próprios processos de trabalho e sua organização são inextricavelmente ligados às relações sociais de produção. Em cada contexto histórico e social, as formas concretas da tecnologia representam uma combinação dos diferentes níveis de poder econômico e político, centralizado nas mãos do capital que enfrenta as aspirações dos trabalhadores por mais autonomia e autogestão. Em conseqüência, as práticas tecnológicas refletem essas contradições e estabelecem os limites de ciência e tecnologia como instrumentos de mudança social. Tanto o desenvolvimento tecnológico quanto sua incorporação ao sistema produtivo obedecem a critérios de racionalidade econômica. Postular mudanças nas relações de poder a fim de conquistar mais equidade e justiça social com base em políticas e diretrizes convencionais soa ingênuo ou beira a mistificação deliberada.
Assim, a crise social e a destruição do meio ambiente prosseguem em direção à catástrofe global arrastando toda a humanidade.
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