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A Síria na encruzilhada

Após a derrubada relativamente fácil dos regimes ditatoriais na Tunísia e no Egito criou-se um impasse em dois países da região para a solução dos conflitos entre os governos e os “rebeldes”. Primeiro, pela resistência encarniçada de Muammar Qadaffi na Líbia e agora também na Síria onde o presidente Bashar Assad prometeu revogar a lei de exceção em vigor há décadas. Entretanto, ao mesmo tempo, mandou atirar contra os manifestantes.

A Síria, um país relativamente pequeno em área – 185 mil km2 – tem 23 milhões de habitantes, tendo fronteiras, além do Mediterrâneo à leste, com a Turquia, Iraque, Jordânia, Líbano e Israel que ocupa parte de seu território, as Colinas Golã, desde a guerra dos seis dias em 1967. Seu interior é quente e semi-árido enquanto a região costeira usufrui de um clima mediterrâneo agradável. Produtora de petróleo, a Síria exporta gás e petróleo, além de algodão.

A Síria é uma das regiões do mundo que foram habitadas por diversas civilizações: acádios, araméos, canaanitas e foi uma província importante nos sucessivos impérios desde os fenícios até Bizantino. Após a conquista pelos árabes no século VII, Damasco tornou-se a magnífica capital do califado árabe, até passar à dominação pelos turcos otomanos. Após a primeira guerra mundial, com o desmantelamento do império, a Síria foi declarada Mandato Frances até a segunda guerra mundial, quando foi ocupada pelas tropas inglesas. A instabilidade política no pós-guerra – houve três golpes de Estado militares no fim dos quais acendeu ao poder o partido Baath “socialista” sob a liderança do general Hafez Assad, em 1970 que governou por mais de trinta anos com punho de ferro. Com a morte de Hafez, assumiu o poder em 2002 seu filho Bashar Assad, formado em oftalmologia na Inglaterra.

A Síria continua em guerra contra Israel sem tratado de paz, desde a guerra desastrada dos 6 dias em junho 1967, com parte de seu território ocupado – as colinas de Golã até hoje. Politicamente, a Síria ficou profundamente envolvida no Líbano até que o assassinato do primeiro ministro Rafik Hariri em 2005, quando os protestos internos e externos a obrigaram de retirar-se daquele país. Mesmo assim, mantém sua forte presença com o apoio de um exército de fanáticos do Hezbola que atacou tropas israelenses em 2008. Curioso que Hafez Assad, dirigente do Baath, tornou-se inimigo do Baath iraquiano de Saddam Hussein e condenou a invasão do Kuait e aliou-se aos ocidentais na reconquista.

80% da população são sunitas, 12% aleuítas da tribo dos Assad e 10% são cristãos. O caráter totalitário do regime ficou evidenciado na repressão sangrenta, com a morte de 5000 pessoas da própria tribo e novamente na matança de 2.000 pessoas por ocasião de manifestações contra o governo em Hama, no ano de 2000. Também Bashar mostrou sua face por ocasião de um levante de curdos em 2004 quando foram mortos milhares de pessoas no norte do país.

Bashar confia na lealdade de suas tropas e da polícia secreta, além de grupos de mercenários vestidos em roupas civis enquanto atiraram na população. Há também um poderoso grupo de contrabandistas – o Shabah – ligado a Bashar através de laços tribais – étnicos.

O serviço de segurança é estimado em mais de 60 mil homens, os maiores responsáveis pelos massacres. Criado por Assad (pai) é composto por quatro divisões: de inteligência, política, militar e a força aérea que investigam uns aos outros e estão acima da lei civil e tomam as decisões políticas mais importantes. Bashar Assad confia no seu serviço secreto embora em Deraa, cidade no sul do país, uma parte lutou contra as forças do regime. Uma desistência da luta tal como ocorreu no Egito é pouco provável. Todos obedecem ao comando de Maher Assad, irmão do presidente. Embora as principais posições de poder são ocupadas por aleuítas é pouco provável que Bashar estaria sozinho no poder. Rumores sobre debates acalorados na cúpula de poder revelam que nela há “reformistas” e os que defendem a linha dura. O grupo que parece ter mais poder é composto por Maher Assad, o irmão e Assef Shawkat, cunhado do presidente elevado recentemente à posição de chefe do estado maior e Romi Maklouf, um dos homens mais ricos do país.

Na segunda linha, atrás dos Assad, há um grupo conhecido como os “filhos do poder”, em sua maioria próximos ao presidente. Eles têm participação nos principais negócios do país dominando os setores de petróleo, gás, turismo e telecomunicações. O monopólio de açúcar é controlado por Mustafá Tlass, anteriormente ministro da defesa. Além dos aleuítas, Assad conta com a lealdade dos grandes comerciantes de Aleppo e Damasco e de várias tribos de druzos e cristãos. Mas há sinais de fracionamento entre os membros desta coalizão. Centenas de membros do partido Baath o têm abandonado na cidade de Deraa, no sul do país. Mas a base de poder de Assad, é centralizada nos aleuítas da região costeira de Latakia, ocupando mansões e vilas luxuosas que evidenciam a riqueza deste grupo, embora também entre eles há sinais de insatisfação e críticas ao regime.

A maior fissura no tecido político do país é constituída pela divisão crescente entre os “que têm” e aqueles que “não têm” os quais se manifestam com gritos de “Síria é uma, uma, uma”! Embora a maioria da população seja sunita, os jovens não parecem inclinados de submeter-se às leis da religião e se comunicam cada vez mais pela internet.

O maior problema para a oposição é sua falta de coerência e de liderança. Partidos políticos são ilegais. Aqueles que tentaram formar grupos estão presos. Já em 2002, ao assumir o poder, Bashar iniciou a repressão de dissidentes, procurando o apoio de vários grupos que foram incentivados a manifestar-se a seu favor, contra os revoltados embora parecesse haver certo consenso de que o reino de um só partido deve mudar. A Irmandade Muçulmana cujos membros ainda são ameaçados com a pena de morte, certamente seria beneficiada pela queda de Bashar Assad. Mas, seus líderes são exilados nos diversos países do Oriente Médio e tentam promover uma visão e estratégia não violentas, percebendo a aversão da população contra o islamismo político radical.

Enquanto os Estados Unidos e os países europeus têm castigado o governo sírio por matar civis, quase todos os governos árabes da região silenciaram por recear o transbordamento do conflito para seus países. Isto vale, sobretudo para a Turquia que tem 900 km de fronteira com a Síria e está preocupada com uma possível onda de refugiados curdos daquela região. Apesar de boas relações entre os dois países nos últimos anos, o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdegan tem insistido publicamente para que se use o “máximo de moderação” no tratamento dos revoltados. Dificilmente, Bashar Assad seguirá este conselho, mas mesmo matando mais opositores, a tendência é o enfraquecimento de sua posição. No círculo interno de Bashar, a mesma lógica do aparelho de segurança parece prevalecer. Assim, teremos de assistir a duas guerras civis, na Líbia e na Síria no futuro próximo.

Enquanto a OTAN tem dado apoio limitado aos rebeldes líbios, nenhuma medida semelhante foi aventada para a Síria e uma nova intervenção militar estrangeira parece fora de cogitação. A verdade nua e crua é que a ninguém interessa a deposição do ditador, nem aos países ocidentais nem aos vizinhos. Também há o receio de que a queda Assad solaparia os esforços de paz entre israelenses e palestinos, atrapalharia o delicado equilíbrio no Líbano e no Iraque e favoreceria a ascensão dos extremistas. Os países da região estão a favor do status quo. Israel receia que um novo governo adote pressões mais agressivas para a devolução das colinas de Golã. E a União Europeia não está inclinada para uma mudança de regime devido a fortes interesses comerciais com a Síria exportadora de petróleo. Naturalmente, este consenso vergonhoso não é divulgado. Na teoria, todos os governos são a favor de reformas.

Quais são então as perspectivas de uma solução do conflito? Uma extensão e o alastramento para a região parece inevitável, contagiando outros regimes ditatoriais da região tal como o Yémen cujo presidente prometeu renunciar no fim deste mês. Mas é, sobretudo nos reinos monárquicos absolutistas, ricos em dinheiro e petróleo do Golfo Pérsico, particularmente a Arábia Saudita, pilar da estratégia de defesa dos EUA nesta região que, em caso de instabilidade poria de joelho o Ocidente sedento de combustível exportado de lá. Sendo assim, o levante contra Bashar Assad revela aspectos bem mais complexos do que nos outros países – Tunísia e Egito – que encontraram uma solução, ainda que temporária e precária.

Enquanto isso, o Irã, maior aliado da Síria aguarda a oportunidade para entrar em cena e conquistar a hegemonia em toda a região. Transformar a “primavera” árabe em verão dependerá dos próprios habitantes, seja onde for.

04 de Maio, 2011
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