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Novamente, guerra e paz no Oriente Médio
Ao definir o título de meu último livro “Israel e a paz no Oriente Médio” (publicado pela editora Nobel, São Paulo, 2009) acrescentei uma pergunta retórica “uma luz no fim do túnel”? Decorrido um ano desde então e após um conflito armado curto, mas violento, na Faixa de Gaza, fica cada vez mais evidente que a situação de “nem guerra, nem paz” é o estado comum das relações entre Israel e seus vizinhos, no Oriente Médio. Cada vez que um esforço de negociar a paz entre Israel e os palestinos fracassa, esta fica mais débil e distante e o risco de guerra aumenta. Neste início de 2011, se não houver iniciativas corajosas e eficazes, a probabilidade de um novo conflito, mais destrutivo, parece imanente. Uma das possíveis causas para uma guerra eventual é a contradição entre as aspirações do Irã de adquirir armas nucleares, a qualquer custo, e a decisão de Israel de evitar que isto aconteça, a qualquer custo.
O receio do avanço do programa nuclear iraniano constitui apenas um dos fatores capaz de detonar uma explosão a qualquer momento. Outro é representado pela corrida desenfreada atrás de novas armas, desde as guerras limitadas, em 2006, contra o Hezbola no Líbano, e em 2009, contra o Hamas, na Faixa de Gaza. As casualidades civis de Israel nos dois conflitos foram relativamente leves. Entretanto, desde 2006, o Irã e a Síria forneceram algo ao redor de 50.000 foguetes, muitos com alcance e capacidade de carga mortal muito superiores àqueles possuídos pelo Hezbola em 2006, permitindo ao grupo extremista atingir milhares de civis israelenses, em qualquer cidade do país. Neste caso, a resposta de Israel seria devastadora, podendo o conflito envolver a Síria e o Irã. Por enquanto, o poder de dissuasão das armas israelenses parece ser capaz de manter uma relativa paz na região.
Esta situação confere nova urgência às negociações de paz entre israelenses e palestinos. Tanto o Hezbola quanto o Hamas, apoiados pelo Irã, têm proclamado que nunca aceitarão a existência do Estado judeu no Oriente Médio. Mas, é a interminável ocupação do território palestino que alimenta a belicosidade dos extremistas “jihadistas”. Concedendo aos palestinos seu Estado na Cisjordânia, a chamada dos extremistas para a “guerra santa” será mais difícil e menos justificável. A questão central é se as negociações de paz, após tantos fracassos, poderiam prosperar? Após dois anos de tentativas de levar os dirigentes israelenses e palestinos à mesa de negociações diretas, o colapso por causa da questão dos assentamentos pode levar o presidente Obama a concluir, como tantos outros presidentes americanos antes dele, que a intermediação entre os dois povos é uma tarefa de Sísifo. Mas desistir seria um erro de consequências trágicas, não somente para os EUA como também para Israel e os palestinos. O fim do processo de paz pode assinalar o começo do processo de guerra nesta região, tão rica em recursos energéticos que sempre são invocados para justificar a presença militar dos EUA na região. Israel também sofrerá porque os palestinos têm demonstrado constantemente que não silenciarão enquanto seus direitos lhes são negados. Quanto mais Israel estende a ocupação militar dos territórios, negando os direitos legítimos dos palestinos, mais isolado ficará na comunidade internacional. Esta situação coloca um desafio histórico para os Estados Unidos. A realidade evidencia que os extremistas dos dois lados tornaram-se fortes demais para que seus dirigentes politicamente fracos possam assumir a responsabilidade de um compromisso. Cabe ao mundo, através das Nações Unidas, impor um acordo a cada um dos atores do conflito. As linhas diretrizes deste acordo foram estabelecidas pelo presidente Clinton, com claros parâmetros após o fracasso das negociações de Camp David. A fronteira entre Israel e a nova Palestina deverá seguir as linhas pré-guerra de 1967, com ajustes e compensações pelos principais assentamentos na Cisjordânia, para atender as reivindicações dos palestinos. Há, contudo, questões mais difíceis a serem equacionadas. Como tornar Jerusalém uma capital compartilhada; como resolver o problema do retorno dos refugiados e como assegurar que o novo Estado não se transforme em outra Gaza, controlado pelo Hamas, após a retirada das forças israelenses? Tal como Clinton, Obama deve revelar seu “mapa de estrada” ao iniciar um novo esforço de mediação. Deve-se conseguir o apoio da comunidade internacional, seja através das Nações Unidas, seja mediante uma conferência internacional tal como a convocada pelo presidente Bush (pai) e realizada em Madri, em 1991. Diferentemente de Bush que deixou os negociadores soltos após a conferência, Obama deverá exercer pressão e mostrar capacidade de liderança para os dois lados. A pressão parece um elemento essencial da equação. Na primeira tentativa de Obama, enfrentando Israel sobre a questão dos assentamentos, o presidente americano recuou, expondo a fraqueza diplomática dos EUA na região, onde muitos percebem também um enfraquecimento de seu poderio militar. Esta visão pode estar equivocada, porque com todos os problemas econômicos em casa e militares no Iraque e no Afeganistão, a presença dos EUA no Oriente Médio continua forte e tanto Israel quanto os palestinos dela dependem em inúmeros aspectos.
Os palestinos têm tentado ultimamente levar seu caso para as Nações Unidas, contornando os EUA. O fato concreto é que, sem a pressão norte-americana, Israel não terá condições de conter os assentamentos para poder concluir um acordo com os palestinos e ganhar aceitação no mundo árabe. Por isso, Obama não pode esmorecer em seus esforços de manter acesa a esperança da paz.
O Oriente Médio guarda em seu subsolo uma parcela gigantesca das reservas mundiais em hidrocarbonetos, o que explica o interesse dos EUA e de outros países dependentes do suprimento regular de petróleo desta região. A influência dos EUA diminuiu no mundo todo em conseqüência da crise financeira, da ascensão dos países “emergentes” e do fracasso nas duas guerras, no Iraque e no Afeganistão. Duas décadas atrás, quando os EUA mobilizaram um grande contingente militar para expulsar Saddam Hussein do Kuwait, seu prestígio estava no ápice. Em 2011, sua influência perdeu força ao patinar em seu esforço militar no Iraque e no Afeganistão e, sobretudo, com o impasse nas negociações de paz entre Israel e os palestinos. A política externa norte-americana está sofrendo derrotas sucessivas no Oriente Médio. Israel, seu aliado mais próximo, que recebeu US 27 bilhões de ajuda militar na última década, rejeitou, apesar das pressões insistentes, uma proposta de sustar as construções nos assentamentos disputados, para permitir a retomada das negociações. No Iraque, apesar de muito sangue e recursos financeiros despendidos, nove meses após as eleições, surgiu um governo frágil, mais de agrado do Irã, que continua com suas ambições nucleares. Em toda a região, políticos que contestam a hegemonia norte-americana, como Recep Tayyip Erdogan da Turquia e Hugo Chaves da Venezuela, ganharam popularidade.
Outros países da região, antigamente aliados dos EUA, como a Arábia Saudita e o Egito, dão sinais de enfraquecimento da aliança. A Arábia Saudita, governada por um rei idoso e doente, é o cenário de uma luta em surdina entre dezenas de príncipes e de clãs pela sucessão, e o Egito continua dominado com mão de ferro por Hosni Mubarak, há mais de trinta anos. Os governos desses dois países, os mais populosos e ricos da região, parecem perder força e influência sobre suas populações. Os erros dos EUA aceleraram o declínio de sua influência. O fracasso da descoberta de armas de destruição em massa que deveria justificar a invasão do Iraque, as torturas de Abu Ghraib e de Guantámano solaparam a autoridade moral dos EUA e encorajaram os extremistas do Hamas e Hezbola, sempre apoiados pelo Irã, a desafiar crescentemente a superpotência. Seis mil vítimas das guerras entre suas tropas e gastos superiores a um trilhão de US dólares minaram também a confiança e a disposição da população norte-americana para assumir novos sacrifícios. A redução das tropas de 150.000 para 50.000 no Iraque representa um tímido avanço, ainda que frágil, da política norte-americana na região, cuja situação parece cada vez mais problemática.
O ponto nevrálgico permanece o conflito entre Israel e os palestinos, acirrado pela recusa de Benjamin Netanyahu de parar a construção nos assentamentos e o pedido insistente, quase desesperado, do presidente da autoridade palestina, sob forte pressão de sua população, de mostrar algum progresso após duas décadas de adiamentos e esperanças desmentidas. Entre as acusações formuladas pelas populações árabes no Oriente Médio, o apoio contínuo dos EUA a Israel figura em primeiro lugar e, provavelmente, reforça o apelo dos “jihadistas” para a juventude alistar-se em suas fileiras.
Mas nem a História, nem os movimentos extremistas, param: enquanto perdurar o impasse, todos – israelenses e as facções extremistas do Hamas e Hezbola – continuam a preparar, com armas mais mortíferas, a próxima guerra.
São Paulo, janeiro de 2011
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