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O Declínio dos Samurais
A História da humanidade é rica em ensinamentos sobre a ascensão e o declínio de impérios baseados na acumulação de riquezas alavancada por conquistas militares, com a subjugação e exploração de outros povos. Entretanto, às conquistas dos portugueses e espanhóis no século XVI seguiu-se a expansão dos holandeses e, no século XVIII, predominou a supremacia francesa e britânica. O império britânico atingiu seu apogeu no século XIX, entrando em decadência a partir da Primeira Guerra Mundial que inaugurou o século da hegemonia norte-americana, contestada, sem sucesso, pela ex-União Soviética, aproximadamente durante trinta anos. Na segunda metade do século XIX, o Japão despontou como potência econômica e industrial, em busca, embora tardiamente, de colônias capazes de abastecer a demanda crescente por matérias-primas e recursos energéticos. A ascensão do Japão à categoria de potência industrial e militar, em meio século, causou espanto e admiração no mundo. Após séculos de reclusão e proibição de contatos com estrangeiros durante o reino do Xogunato dos Tokugawa, ocorreu a abertura forçada de seus portos sob a ameaça dos navios de guerra norte-americanos comandados pelo Comodoro Perry, em 1853-4. Seguiu-se um período de rápida modernização e industrialização que permitiram a constituição de uma força militar capaz de derrotar a China (1894-5) e o maior exército daquela época, o da Rússia czarista, em 1904-5. Após a derrota dos chineses, o Japão anexou a ilha de Formosa (hoje, Taiwan) e, após a derrota da Rússia, a Coreia e parte do norte da China, criando em 1932, o reino de Manchukuo na Manchúria e nomeando como seu imperador fantoche o descendente da casa imperial chinesa deposta pela revolução de 1911.
Durante a primeira guerra mundial, o Japão aliou-se à Entente – a aliança de França, Grã Bretanha e Rússia, aos quais iria juntar se os Estados Unidos, mas foi preterida na distribuição do botim ao fim das hostilidades, em 1918, o que levou o país a uma associação mais estreita com os países do “Eixo”, Alemanha e Itália, entrando na segunda guerra mundial com seu ataque a Pearl Harbour, em que grande parte da frota de guerra norte-americana foi destruída. Destruído e arrasado, inclusive por duas bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, o Japão rendeu-se e ficou sob ocupação das tropas norte-americanas até 1952 quando adotou uma nova Constituição e conquistou sua plena independência. Com isto, deu início a um período de reconstrução e rápido desenvolvimento industrial e, em duas décadas apenas, alcançou a posição de segunda potência econômica do mundo, a partir dos anos setenta do século passado. A rapidez e a intensidade deste desenvolvimento, realizado em um território limitado de 381.000 quilômetros quadrados, sem recursos naturais, matérias-primas e energéticas, com uma população de 120 milhões de habitantes, levou os analistas a conotar o renascimento das cinzas como o “milagre” japonês. Tendo chegado tardiamente ao desenvolvimento industrial capitalista, o Japão adotou políticas econômicas orientadas para o mercado interno, proporcionando o Estado a infra-estrutura de energia e transportes e contando com uma força de trabalho educada, disciplinada e diligente e uma administração pública preparada e eficiente. No período pós-guerra, os industriais japoneses aprenderam e superaram seus concorrentes ocidentais e introduziram profundas transformações nas linhas de produção e nos processos de trabalho. Entre esses, merecem destaque a flexibilização das linhas de produção; o controle de qualidade total; a introdução do “Kan Ban”, ou seja, o suprimento de insumos em tempo real, eliminando-se a necessidade de manter grandes estoques e a modificação das relações humanas nas empresas, com base em um paternalismo benevolente e um sistema de consulta dos empregados.
Na organização da sociedade japonesa prevalece o padrão hierárquico da “senioridade”, diferente das sociedades ocidentais nas quais predomina o princípio do “mérito”. A concorrência entre pessoas e empresas é travada horizontalmente, em todos os níveis, entre os pares que operam no mesmo ramo ou setor. Enquanto estimula o antagonismo contra os “outros” da mesma classe ou nível, fortalece a hierarquia e os laços de solidariedade em sentido vertical, em cada organização ou unidade do sistema produtivo, criando assim um clima de harmonia e de responsabilidade mútuas, nas empresas e na sociedade, que contribui poderosamente para o “ésprit de corps” e o etos coletivo. Apesar das grandes transformações ocorridas em consequência da urbanização e industrialização com novas formas de organização social, essas mudanças, segundo a socióloga japonesa Chie Nakane, não afetaram a estrutura tradicional e as relações informais.
Mas a História não de desenrola em linhas retas: o que foi vantagem em um dado período pode criar tensões e conflitos em um novo contexto. O sistema de qualificação e treinamento da mão de obra, após três décadas de sucessos invejáveis, não conseguiu assimilar as novas técnicas e procedimentos necessários para fazer face às mudanças impostas pela globalização da economia e a competição em escala mundial. O envelhecimento da força de trabalho, a valorização do iene em relação ao dólar, a fragilidade do sistema financeiro japonês no auge da crise mundial pressionam no sentido de mudança de padrões tradicionais de conduta para conseguir manter sua posição no mercado internacional, extremamente competitivo. Em 2005, a economia chinesa produziu metade do que a do Japão. Em 2010, ela vai ultrapassar o PIB (produto interno bruto) de seu rival histórico. Por ter uma população onze vezes maior, este crescimento era previsível, mas, ainda assim, observadores e analistas ficam pasmos diante da velocidade da expansão chinesa. Por outro lado, o Japão que três décadas atrás era considerado sério candidato a tornar-se o número um da economia mundial, (vide E. Vogel – Japan as number one, 1980, Tókio, E.C. Tuttle) está mergulhado numa crise que não parece ter fim. Sem dúvida, algumas empresas japonesas continuam a ocupar a liderança em seus respectivos setores, tais como a Toyota, a Honda, a Toshiba, a Mitsubishi, a Cannon, a Sony e outras, mas este fato não consegue ocultar o mal estar reinante entre e dentro das empresas que seguem um modelo de administração ultrapassado, impedindo inovações e primam pela má alocação de recursos financeiros e humanos. Premiado com uma força de trabalho de boa escolarização, disciplinada e diligente, o tradicional sistema de promoção por senioridade barra a ascensão de elementos mais jovens, com espírito inovador. A resistência às mudanças e o apego às tradições levam também à diminuição do número de estudantes que procuram instituições de ensino superior no exterior, ao mesmo tempo que China e Índia dobraram o número de seus estudantes em universidades fora do país, com elevadas taxas de retorno à pátria, trazendo em sua bagagem além do “know how” e da tecnologia o perfeito domínio do inglês, idioma que funciona como passaporte nos mercados globais. O Japão pouco aproveita a mão de obra feminina, sobretudo para ocupar postos de chefia e a remuneração das mulheres não passa de 60% em relação à dos homens.
Em junho de 2010, o METI – Ministério de Economia, Comércio e Indústria – divulgou seu plano estratégico de apoio a setores dinâmicos, merecedores de financiamentos governamentais, tais como grandes obras de construção no exterior, turismo médico e a indústria nuclear. Mas, com as mudanças no governo e na burocracia, esses projetos foram relegados ou engavetados. Alguns observadores apontam para a ascensão da Coréia do Sul, com apenas quarenta milhões de habitantes, que venceu uma concorrência para a construção de quatro reatores nucleares nos Emirados Árabes Unidos.
O Japão iria ultrapassar os Estados Unidos por causa de seu sistema de educação superior, a baixa taxa de criminalidade, as boas relações industriais e a tradicional coesão social. Mas, quando a crise financeira mundial estourou em 2007, as perdas da economia japonesa atingiram níveis astronômicos e fizeram surgir os problemas antes varridos debaixo do tapete, tais como a alta taxa de suicídios, a violência doméstica e a desonestidade do aparelho burocrático. A estagnação econômica que perdura até nossos dias, afetou seriamente a classe média e revelou que 14% das crianças são criadas na pobreza. O grande desafio é a evolução demográfica: as estatísticas revelam que, por ostentar o maior índice de longevidade, o aumento do contingente de idosos é acompanhado por uma baixa taxa de fecundidade, insuficiente para reconstituição do equilíbrio da população em níveis aceitáveis. O número de trabalhadores ativos para sustentar uma pessoa idosa caiu de dez, em 1950, para quatro em 2000 e 70% do orçamento público destinado à seguridade social vão para os idosos, contra 4% para as crianças, o que reforça a tendência para a queda da fecundidade.
O governo tem se mostrado incapaz de reduzir a dívida pública e a frustração da população diante a inércia tem se manifestado nas eleições de 2009, quando o Partido Democrático do Japão superou pela primeira vez em cinqüenta anos, o Partido Democrático Liberal, sem que isto tenha induzido mudanças significativas nas políticas. Parece surgir um consenso que os problemas do Japão, no século XXI, não podem ser enfrentados pelo sistema herdado do século passado. Na falta de políticas regeneradoras, o país corre sério risco de perder também a terceira e quarta posição na hierarquia da economia mundial.
São Paulo, setembro de 2010
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