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A Hora e a Vez dos PIIGS - Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha

No texto de maio de 2010, analisamos os BRICs, quatro países que despontam no horizonte econômico pós-crise como novas potências emergentes. Mas as notícias da mídia concentram suas atenções nos cinco países, elos mais frágeis da União Europeia, e que enfrentam uma situação alarmante, próxima à insolvência. Trata-se de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, todos endividados, com déficit público e nas contas correntes muito acima de seu respectivo PIB (produto interno bruto) e, portanto, de difícil equacionamento e, mais ainda, de saneamento de suas finanças sem ajuda externa.

A Itália, com um PIB superior a um trilhão de dólares, faz parte do clube seleto do G-7 e a Espanha, também com PIB superior a um trilhão, foi considerada até a eclosão da crise de 2008, como um exemplo de rápido desenvolvimento e de elevação e consumo de sua população.

A Itália, com 58 milhões de habitantes e a Espanha, com 46 milhões, apresentam um déficit fiscal de 5,3% e de 11,2% do PIB, respectivamente. Pior é a situação dos outros três países: a Irlanda, com 14,3%, Portugal com 9,4% e a Grécia que se tornou a “bola da vez”, com 13,6%. Como reduzir esses déficits para o nível de 3% exigido pelo acordo para a moeda única europeia? Uma forma radical seria postergar o pagamento de todos os títulos públicos, por cinco anos, sem o qual nenhum dos cinco países seria capaz de rolar as suas dívidas que vencerão nos próximos cinco anos. O rebaixamento pelas agências de classificação é um sinal inequívoco da desconfiança dos mercados – leiam-se, os bancos privados e públicos, quanto à capacidade dos países de pagar suas dívidas, sem medidas drásticas, tais como uma moratória, já que a desvalorização da moeda é inviável dentro da zona do euro, a moeda comum da Europa.

Quatro desses países concentraram-se nas medidas e necessidades de financiamento e de ajuste fiscal de 2010, deixando para mais tarde as escolhas difíceis – cortes nos gastos públicos e nos benefícios sociais – que parecem inevitáveis, mas politicamente espinhosos. A Grécia, depois de semanas de negociações com o Banco Central Europeu e com a Comissão Europeia, conseguiu o anúncio no dia 2 de maio de um pacote de ajuda de 110 bilhões de euros, trinta dos quais concedidos pelo FMI – Fundo Monetário Internacional e o restante pelos outros países do bloco europeu, incluindo os outros quatro que se encontram em dificuldades. Mais do que socorrer a Grécia, a medida visa garantir a sobrevivência da moeda comum. Um calote grego ampliaria o rombo nas contas dos bancos europeus – que detém 80% das dívidas do país – reforçará a desconfiança nos outros países endividados, Espanha e Portugal e, em grau menor, Itália e Irlanda.

A atual crise leva analistas a duvidar da viabilidade da união monetária e cambial de países com economias tão díspares.

Na Grécia, durante duas décadas, foi acumulado um déficit fiscal de 13,6% e uma dívida equivalente a 115% do PIB. Para fazer face aos compromissos de austeridade exigidos pelos credores, o governo terá de aumentar impostos, cortar benefícios de aposentadoria e demitir funcionários públicos e aumentar a arrecadação do tesouro nacional, visando a conter a sonegação e a evasão fiscal.

A Standard & Poor´s, agência de classificação de risco, rebaixou a avaliação dos títulos gregos com vencimento no longo prazo para BB+ ou “junk” – lixo no jargão do mercado. Para os de curto prazo, a classificação é B. Todos os países europeus são classificados, pelo menos, de A. Com um déficit fiscal de 13,6% em 2009 e uma dívida calculada em 273,4 bilhões de euros, o pacote de ajuda à Grécia levantou a preocupação de que outros países europeus, com alto nível de endividamento, possam também aproveitar o precedente e procurar a ajuda financeira da União Europeia. Alem de aumentar o temor de contágio em outros países, a crise grega afeta a confiança na moeda europeia – o euro.

Bancos franceses e alemães estão entre os maiores detentores de títulos públicos gregos e uma moratória terá profundos impactos negativos em seus balanços. A ameaça de crise de credibilidade afeta Espanha e Portugal, onde os credores têm empatados, respectivamente, 1,14 trilhão e 286 bilhões de euros. Teme–se que um resgate a Atenas leve a outros, de Lisboa e Madri e, em grau menor, países menos endividados, Itália e Irlanda.

O FMI exige a elevação de impostos sobre o valor agregado e a eliminação de bônus salariais equivalentes a dois meses de pagamentos do setor público, além de um congelamento e salários durante três anos. O público grego será capaz de suportar esse fardo, nos próximos anos? As imagens na TV e na mídia de hoje, 6 de maio, dão uma pálida idéia do que está por vir em resposta às medidas de austeridade propostas pelas entidades financeiras e endossadas pelo governo grego. Os analistas financeiros internacionais que acompanham o desenrolar da crise são unânimes: a única saída para a Grécia é combinar os dois elementos: postergar o pagamento de sua dívida e chegar a um acordo nacional sobre salários e gastos sociais.

A grande preocupação dos credores é que mesmo que o plano de resgate elaborado pela União Europeia e o FMI comece a funcionar, a Grécia continuará a carregar uma imensa dívida que sua fraca economia não terá como suportar. Os cortes profundos no orçamento público e nos salários só vão aprofundar a recessão da economia. Por outro lado, se a Grécia declarar uma moratória que reduza o valor da dívida pela metade, arrasará o sistema bancário nacional, cujos principais bancos já foram rebaixados para o grau de “junk” – lixo pela S&P. Alguns países da zona do euro podem conjecturar se não seria melhor deixar a Grécia quebrar e utilizar os fundos destinados ao seu resgate para socorrer seus próprios bancos.

Ainda assim, continua a existir o risco de contágio. A esperança de poder conter a crise nas fronteiras da Grécia esvaneceu-se. Há uma ansiedade crescente sobre o frágil estado das finanças públicas em Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, cada um com uma combinação de um elevado déficit no orçamento público e uma alta dívida pública, embora nenhum país chegasse ao grau de endividamento da Grécia. Analistas indicam que as finanças públicas da zona do euro não seria pior do que as dos Estados Unidos. O FMI admite que a dívida pública líquida dos EUA possa chegar a 70% de seu PIB neste ano, contra a média de 68% da zona do euro. Mas a zona não constitui uma entidade fiscal consolidada e os investidores recuam de países cujas finanças e perspectivas de crescimento são inferiores à média. Por outro lado, os EUA tem a grande vantagem de imprimir a moeda de reserva mundial o que explica que em tempos de crise os investidores corram para adquirir Letras do Tesouro norte-americanas e a cotação do dólar nos mercados de câmbio tenda a aumentar.

10 de Junho, 2010
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