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Reflexões para a senda da vida*

Num encontro casual, há poucas semanas, um dos formandos lembrou que ao iniciarmos o curso de Introdução à Metodologia Científica e de Pesquisa, no primeiro semestre, ele ficou perplexo e, por isso, gravou em sua memória três perguntas formuladas pelo professor: “Quem somos? Donde viemos? Aonde vamos?”. E, da mesma forma como então o fizemos, também desta vez confessamos contra todas as expectativas, que não temos respostas e que não existe verdade ou certeza absoluta quanto à origem do universo, da natureza e ao destino do homem e da sociedade humana. Isto pode parecer um absurdo: com todo o progresso das ciências, não teríamos respostas a essas perguntas?
Mas, como dizia o filósofo Karl Popper, não temos certeza, não existe verdade, apenas podemos formular hipóteses sujeitas à verificação e eventual refutação. Se esta postura for válida, então ao fazermos o balanço dos quatro anos de estudos, não se deve considerar como ativo apenas a quantidade de informações e conhecimentos adquiridos e acumulados – sempre sujeitos à verificação e refutação – e, portanto, efêmeros e nem sempre aplicáveis em novas situações que surjam. O saldo maior é representado pela metodologia de análise e avaliação crítica, pela dúvida sistemática perante afirmações peremptórias, dogmáticas e autoritárias e, por outro lado, pela capacidade de afirmar nossos valores, mesmo quando opostos à corrente geral do senso comum.

As três perguntas formuladas são de um quadro de Paul Gauguin e, por razões óbvias de falta de tempo, não podemos analisá-las neste momento. Paleontólogos, astrônomos, físicos, biólogos e bioquímicos discutem permanentemente as diferentes hipóteses sobre a origem do universo, suas características e sua dinâmica – estaria se expandindo? Ou estaria se contraindo? E, mesmo que os antropólogos Leakey e Le Gros tenham encontrado no coração da África fósseis que parecem indicar a presença de humanóides há cerca de três milhões de anos sobre a Terra, nada sabemos de sua origem, a não ser por hipóteses mais ou menos prováveis.

Já a terceira pergunta – aonde vamos? – constitui uma questão diferente e a resposta é possível, ainda que em termos condicionais e cercada de uma série de restrições lógicas e ideológicas. Pois o futuro do homem – o destino da humanidade – não é algo determinado por leis científicas ou processos evolucionários de natureza determinista. Se tivermos aprendido as lições da História, então a mais clara e insofismável é a de que os homens serão senhores de seu destino, na condição de que adquiram a ciência e a consciência de suas responsabilidades perante as circunstâncias e o contexto histórico e estejam devidamente organizados e motivados para agir em função de seus objetivos. Todas as ciências e a tecnologia não são capazes de nos ensinar “o que fazer”. Eventualmente, nos fornecem indicações sobre o “como fazer”, uma vez decidido o caminho a seguir e as metas a serem alcançadas.

A busca da “verdade”, da certeza absoluta, parece um beco sem saída, assim como o é a própria vida, a não ser que lhe atribuamos, contra a perspectiva certa da morte, o sentido da continuidade social, da dimensão histórica e, assim, da eternidade. À pergunta “aonde vamos”, uma resposta deve ser encontrada, porque dela depende o nosso futuro, individual e coletivo. Costuma se enfatizar o antagonismo entre as ambições individuais e os objetivos sociais, a afluência individual e o bem estar coletivo. Adam Smith, filho do século da Razão – que além de economista foi também filósofo, preocupado com as leis morais que regem o convívio humano –, postulava o princípio da “mão invisível”, ou seja, que a dinâmica do mercado numa economia competitiva seria o elemento regulador entre os objetivos egoístas dos indivíduos e os interesses da sociedade.

A expansão da sociedade de consumo, baseada na produção padronizada e em grande escala, eliminou a concorrência entre muitas pequenas empresas como elemento regulador entre a oferta e a demanda e, assim, do equilíbrio social. A organização da produção em grandes unidades se reflete e projeta sua sombra sobre todas as atividades humanas – sociais, culturais e políticas. A afluência material e o desperdício são apresentados como sinais do progresso ou do “desenvolvimento”; a tutela do Estado e sua onipotência manifestam-se em todas as esferas da vida social, enquanto a liberdade, os direitos do homem e sua autonomia são ignorados, definham ou são pisoteados impiedosamente.

A receita prescrita para todos os males e problemas sociais é o “desenvolvimento”, considerado um mito por Celso Furtado e por tantos outros pensadores críticos e a solução dos problemas sociais, inclusive a liberdade e o desabrochamento da personalidade dos indivíduos, seriam meras consequências do primeiro. Os tecnocratas do Ocidente e do Oriente recusam se sistematicamente a reconhecer e compreender que o futuro da humanidade depende não tanto de indicadores técnicos ou econômicos quanto da conquista dos direitos humanos por e para todos. Em nenhuma circunstância, a política deve levar à reificação ou coisificação do ser humano. Nenhuma razão de Estado, doutrina de bem estar ou de segurança nacional deve reduzir o indivíduo a um mero objeto, a um meio para um fim, porque uma sociedade aberta, democrática, nunca poderá ser substituída por homens tutelados, meros executores de ordens e instruções emanadas daqueles que proclamam o fim da era da democracia e o direito do Estado de sobrepor-se ao indivíduo e aos seus direitos inalienáveis.

A História nos ensina diferentemente: há pouco mais de 200 anos, um grupo de homens, num impulso inédito na História da humanidade, proclamaram em Paris os 13 princípios, conhecidos como a “Declaração dos Direitos do Homem”. É verdade, à Revolução Francesa seguiu-se o Termidor e Napoleão, e a Revolução Russa degenerou na repressão sangrenta da oposição e nos “Gulags” stalinistas. Significa isto que devemos abandonar a luta, resignar-nos a meros espectadores da trama urdida por forças “ocultas” ou, pelo contrário, a lição a extrair é a necessidade de recomeçar, procurar novos meios, trilhar novos caminhos para o pensamento libertador e realizador das potencialidades historicamente reprimidas do ser humano? A esperança é tão antiga quanto a própria história da humanidade e tão jovem quanto a aurora da madrugada que começa a raiar...

O mesmo filósofo, Karl Popper, num ensaio intitulado “Fantasias de um realista”, conta uma metáfora de um jovem que atravessa as ruas escuras da cidade, em plena noite, cantando. A reação aborrecida dos cidadãos irados por serem despertados de seu sono não demora em se manifestar. Porém, quem pode duvidar da imperiosidade de cantar em noites de trevas que parecem sem fim?

A resposta à pergunta “aonde vamos?” não a encontramos em diretrizes e planos impostos de cima ou em determinismos das mais variadas espécies. Ela depende de nós todos e é consequência da direção e do significado que soubermos imprimir às nossas vidas: seria a busca individual da afluência, do prestígio ou do poder, insensíveis ao sofrimento alheio?

Há poucas semanas, ao participar de uma conferência sobre “Ciência e Desenvolvimento” realizada na Universidade de Sussex, na Inglaterra, tive a oportunidade de visitar o Observatório Astronômico Real de Herstmonceux, onde está abrigado o maior telescópio da Europa. Ao mirar o Universo e as galáxias a anos-luz de distância, inevitavelmente surge à mente a pergunta sobre qual o significado da vida humana, face às dimensões cósmicas. A vida humana, comparada com o Universo em sua extensão temporal e espacial, é como um piscar de olho. Contudo, seu significado real e atemporal reside na dimensão social que soubermos imprimir às nossas vidas, à ação e participação na construção de nosso destino que é também o da sociedade.

Que lhes seja dado tornarem-se construtores conscientes e bem sucedidos de uma sociedade aberta, democrática e pluralista, baseada no pleno desenvolvimento de cada um: uma sociedade que proporcione a cada um de seus membros o direito à integridade física, o direito de satisfazer suas necessidades básicas e vitais – saúde, educação, alimentação, moradia e trabalho. E o direito à liberdade civil e política – liberdade de pensamento, de associação, de locomover-se e de participar das decisões políticas, ou seja, a participação nas decisões que orientam a sociedade. Enfim, uma sociedade de homens livres, no pleno controle não somente de seus recursos materiais, mas também de seu destino social e político.

* Texto inédito, adaptado de discurso de paraninfo proferido em 30 de outubro de 1978, na formatura da 35ª turma de alunos do curso de Administração de Empresas da EAESP – Fundação Getúlio Vargas.

São Paulo, abril de 2010

20 de Abril, 2010
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