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O Mundo Árabe a Deriva

Nas últimas três décadas, até o estouro da crise econômica global, os países desenvolvidos e, também, os do terceiro mundo conheceram um período de crescimento econômico e de significativos progressos políticos, caracterizados pela queda de regimes militares e ditatoriais e o início de um processo de democratização, sobretudo na América Latina.

Esse processo dinâmico, que abriu espaço à participação política de uma nova classe média, parece ter passado despercebido no mundo árabe, que teria perdido “o bonde da História”.

Falamos de árabes e não de muçulmanos, que representam mais de três quartos dos crentes no Corão e seu profeta Maomé. Os 22 países árabes ocupam uma vasta faixa de territórios que se estende do Oceano Atlântico (Mauritânia e Marrocos) até as bordas do golfo da Pérsia e conta, no total, 350 milhões de habitantes. Os outros países com grandes contingentes de população islâmica – Indonésia, Paquistão, Índia, Malásia, Afeganistão, Irã e Turquia somam mais de 900 milhões, o que torna o Islã a maior denominação religiosa do mundo.

Apesar da Liga Árabe, que congrega os 22 países, é difícil falar de uma comunidade de interesses comuns, no sentido representado pela União Européia. Conflitos internos e externos sangrentos entre nações árabes e com outros países tem causado além da instabilidade e atraso político, a perda de imensos recursos materiais e financeiros, produto da exploração de gigantescas reservas de petróleo e que foram gastos em armamentos, quando não desperdiçados em consumo suntuoso das “elites” dirigentes, dos monarcas autocratas e suas famílias e dos presidentes-ditadores. São exemplos desses conflitos a Argélia, nos anos noventa; o Líbano, sob influência da Síria nos tempos de Hafez Assad;o Iraque, durante a ditadura de Saddam Hussein; a invasão do Kuait pelo Iraque; a guerra do Iraque contra o Irã que durou quase uma década e ceifou a vida de mais de um milhão de soldados; a guerra civil no Sudão, que causou meio milhão de vítimas e inúmeros refugiados; a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, em busca de supostas ADM – armas de destruição em massa inventadas pelo presidente George W. Bush – e, sobretudo, o confronto interminável entre palestinos e Israel.

Entretanto, o crescimento demográfico que mais do que duplicou a população nas grandes aglomerações urbanas durante as últimas três décadas constitui um dos fatores que pressionam no sentido de mudanças na estrutura social e política.

São várias as causas da instabilidade e dos conflitos entre os árabes, das quais destacam-se:

  • a competição e a cobiça pelas riquezas petrolíferas da região que controla entre 60 e 70% das reservas mundiais;
  • as ambições estratégicas e geopolíticas das grandes potências, procurando assegurar o controle das riquezas energéticas.


Basta lembrar que durante a Guerra Fria, a ex-União Soviética associou-se ao regime de Nasser para construir a maior central hidrelétrica da África, em Assuã, no Egito. As empresas petrolíferas dos EUA e do Reino Unido tem investido pesadamente na exploração e no refino de petróleo na região, desde o início do século vinte e hoje, na alvorada do século 21, a China vem juntar-se as potências que competem pelo petróleo da região.

  • O conflito entre Israel e os palestinos que se arrasta desde os primeiros anos do século vinte, constitui o principal pretexto para a manutenção de regimes de “emergência” nos países árabes, embora, na prática, suas ações não tem passado de resoluções retóricas nas reuniões da Liga Árabe, condenando o “agressor sionista”. Ironicamente, decorridos mais de 50 anos desde a guerra que levou ao êxodo forçado ou voluntário de centenas de milhares de palestinos, nenhum desses países tem acolhido e integrado refugiados, mantendo-os em condições precárias em campos isolados e sem direitos à cidadania, enquanto Israel absorveu além dos sobreviventes do Holocausto centenas de milhares de judeus expulsos dos países árabes, após 1948.
  • A situação no Oriente Médio complicou-se após a revolução iraniana que levou ao poder um regime teocrático dos aiatolás e que assumiu a defesa dos palestinos, como uma arma contra os países árabes, aliados dos EUA. Ao condenar o regime “sionista” e proclamar sua intenção de “apagar Israel do mapa”, o Irã apela para as paixões das massas árabes oprimidas e cria assim uma ameaça concreta aos regimes árabes, conservadores e aliados aos EUA.
  • A ausência de uma sociedade civil e de suas instituições jurídico-legais que caracterizam uma sociedade moderna permite aos regimes autoritários prosseguir na repressão violenta das tímidas aspirações pela secularização e pela democracia. A tarefa dos elementos mais moderados se torna mais difícil, após as guerras recentes travadas por Israel, na Faixa de Gaza e no Líbano. As cenas dos combates mostradas pelas TVs, notadamente Al Jazeera, com sede em Qatar, enfureceram as massas árabes e os desviaram de suas revoltas contra seus governantes.


Os governos do Egito, Jordânia e Arábia Saudita, que deixaram implícito seu desejo de uma dura derrota do Hezbollah e do Hamas, pagaram um preço pesado no que diz respeito a sua popularidade. Uma das conseqüências dos dois conflitos foi a rejeição de qualquer idéia de paz e de coexistência pacífica com Israel. No Líbano, apesar da derrota nas últimas eleições, o Hezbollah continua sendo admirado e louvado por sua militância, ausência de corrupção e eficiência na administração de obras sociais.

Israel é considerado o “ópio” dos árabes, intoxicando-os a ponto de esquecerem seus próprios fracassos. Os governantes árabes tem se aproveitado do conflito com Israel como pretexto para manter um “estado de emergência” em seus territórios e rejeitar quaisquer reformas políticas.
A posição de Barack Obama, mostrando sinais de compreensão pelas queixas dos palestinos ao pressionar Israel para ceder nos pontos críticos no caminho da paz, ou seja, parar de construir novos assentamentos e de ampliar os existentes, deve incomodar os reformistas e liberais árabes, que sonham em derrubar os regimes e as monarquias no Oriente Médio.

Pouca coisa mudou no cenário político dos países árabes nas últimas décadas. No Egito, o país mais populoso do mundo árabe, o presidente Hosni Mubarak não dá sinais de ceder o poder, após quase trinta anos dirigindo o país. Da mesma forma, o ditador sírio Hafez Assad, ao morrer, assegurou que o poder ficasse com o filho Bashir Assad, formado na Inglaterra em oftalmologia. Na Líbia, o coronel Gadaffi mantém-se no poder, há quarenta anos. Nos outros países árabes, do norte da África (Marrocos, Argélia, Tunísia,) até o Golfo (Arábia Saudita, Yémen, os emirados árabes, e Kuait) os governantes reprimem com mão de ferro qualquer movimento, mesmo de cunho religioso, que proponha mudanças políticas. Entretanto, apesar da opressão por meio de um aparato policial-militar onipresente, o mundo árabe passa por uma profunda transformação, a começar pela dinâmica demográfica: a população desses países dobrou de 180 milhões para 360 milhões nos últimos 25 anos. A estagnação política não impediu a rápida urbanização e a emergência de um grande contingente de jovens de 25 a 30 anos, que exigem empregos e educação, além do acesso ao mundo moderno de comunicação e cultura. Ressentem-se do atraso de seus países nas áreas de ciência e tecnologia e a tremenda escassez de livros traduzidos. Essa população jovem tende a duplicar nas próximas décadas, quando as fabulosas riquezas provenientes da exploração do petróleo terão se esgotado. Não existindo canais e instituições políticas para a livre manifestação das camadas mais educadas e cultas, a dominação autoritária tende a se perpetuar, junto com a divisão profunda entre os países árabes. As reuniões periódicas da Liga Árabe costumam terminar com resoluções vazias, embora manifestem invariavelmente sua condenação a Israel e o direito dos palestinos a seu estado. Os discursos dos representantes dos regimes autocráticos e repressivos enaltecem as leis draconianas da Shahria – a interpretação do livro sagrado, o Corão – e rejeitam reformas liberais, como a concessão de direitos iguais às mulheres.

Apesar de sua importância estratégica e geopolítica, o mundo árabe padece de seu atraso político e social. Seus países chegaram atrasados ao mundo moderno, tendo seu nacionalismo sido despertado pelo coronel inglês Lawrence que, ao derrotar os turcos com a ajuda dos nômades wahabitas do deserto, permitiu à Inglaterra e à França a dividir o Oriente Médio, impondo monarquias em vários países – algumas de curta duração como no Iraque –, mas cuja rivalidade perdura até hoje.

Embora tendo a religião islâmica e o Corão, o livro sagrado, em comum, a maioria dos muçulmanos do mundo não é árabe e o conflito secular entre xiitas e sunitas continua cada vez mais aceso, sobretudo após a conquista do Iraque pelos EUA e os claros sinais expansionistas do Irã dos aiatolás.

A imensa riqueza em hidrocarbonetos – gás e petróleo – não foi suficiente para moldar a unidade dos países árabes. O principal fator da precária unidade é constituído pela inimizade contra Israel e a reivindicação de criação de um estado palestino. Foram várias as tentativas dos EUA de intermediar o conflito, desde George Bush (pai) em 1990, Jimmy Carter que logrou a celebração da paz entre Egito e Israel nos anos 70; os esforços de Bill Clinton, fracassados pela resistência de Yasser Arafat e, finalmente, a proposta do “mapa da estrada” (road map) de George W. Bush (filho), igualmente infrutífera. Recentemente, no início de 2009, o presidente eleito Barack Obama manifestou sua empatia com a causa dos palestinos, lançando sinais inequívocos para Israel ceder na questão dos assentamentos, na criação do estado palestino e da partilha de Jerusalém. Mas, quem afinal representará os palestinos nas negociações? Qualquer acordo que venha a ser celebrado entre Israel e os palestinos deve ser avalizado pelas duas partes – o partido islâmico Hamas e seus rivais seculares do Fatah, o movimento liderado por Yasser Arafat até sua morte em 2004, quando Mahmoud Abbas assumiu a liderança. Apesar dos esforços de mediação do Egito e de outros líderes árabes, os dois grupos não se entendem para criar um governo de unidade palestino. Este reconheceria todos os acordos anteriormente celebrados pela OLP – a organização de libertação da Palestina – com Israel, incluindo seu reconhecimento até hoje negado pelo Hamas.

A eleição de 2006 conferiu ao Hamas 44% dos votos, contra 41% do Fatah, constituindo o primeiro uma ampla maioria de deputados no parlamento. A recusa do Hamas em reconhecer Israel e renunciar à violência levou ao seu isolamento político e econômico pelo bloqueio de Israel, com o endosso do Quarteto de Madri – os EUA, a União Européia, as Nações Unidas e a Rússia. Um ano e meio depois, o Hamas tomou o poder na Faixa de Gaza, expulsando os partidários do Fatah para a Cisjordânia.

Os ataques contínuos por meio de milhares de foguetes lançados contra o território de Israel levaram o primeiro ministro Ehud Olmert, na véspera de sua saída do governo, a lançar um ataque violento contra Gaza, em que morreram 1200 palestinos e 12 soldados israelenses, sem, contudo, alterar a situação de controle de Gaza pelo Hamas. A tensão entre os dois grupos palestinos rivais continuou durante os primeiros meses de 2009, embora os lideres dos dois lados parecem ter entendido a mensagem da necessidade de um acordo para poderem pleitear a criação de seu estado.

Em janeiro de 2010, os palestinos irão às urnas para eleições presidenciais e parlamentares nas quais, segundo pesquisas de opinião pública, o Fatah deverá sair vencedor, em parte devido à queda da popularidade do Hamas, considerado pela população civil como culpado pelos estragos causados pelo bloqueio e o bombardeio do território pelas forças armadas de Israel. Entretanto, a aspiração para a criação de um estado palestino ao lado de Israel dificilmente será concretizada enquanto o governo de Israel, sob a pressão dos EUA, não estiver de acordo e os dois partidos palestinos não superarem suas divergências internas, no interesse de seu povo. A proposta defendida por Olmert estava muito próxima dessa solução e espera-se, nos círculos diplomáticos, que também Netanyahu deva se inclinar para este passo inevitável. Quanto aos palestinos, muitos dos quais acreditaram que o tempo trabalhava a seu favor e que Israel desapareceria do mapa, conforme prega Ahmed Ahmadinejad, o presidente do Irã; hoje, mesmo o Hamas parece admitir a continuidade da existência de Israel.

Entretanto, como para jogar um balde de água fria nas cabeças dos partidários da paz, foi apresentado um projeto de lei no parlamento de Israel que criminaliza manifestações de luto e de dor no aniversário da independência de Israel. Mesmo que a proposta fosse aprovada, provavelmente seria vetada pela Suprema Corte. Ainda assim, a aprovação do projeto em maio deste ano pela comissão de legislação assustou os grupos liberais no estado judeu e alertou os palestinos, onde quer que se encontrem, como um sinal que a campanha anti-árabe do novo ministro de relações exteriores, Avigdor Lieberman não foi uma manobra eleitoral apenas. “Esta é uma proposta sionista e patriótica” afirmou Alex Miller, membro do partido, “Israel é nossa casa”, que considera que os palestinos, moradores em Israel, ao conotar o dia de independência como “naqba” – catástrofe – estariam explorando a natureza democrática do estado de Israel, a fim de destruí-lo por dentro. A proposta da lei prevê penas de até três anos de prisão para seus transgressores.

Outro ponto na agenda de Lieberman é um juramento de “fidelidade” ao estado, sob pena de perder a cidadania ou os benefícios proporcionados pela política de bem estar, sobretudo educação e saúde. Também esta proposta visa claramente os cidadãos de origem árabe que constituem um quinto da população de sete milhões de habitantes. O sucesso do “Israel é nossa casa” nas últimas eleições, quando conquistou 15 assentos no parlamento de 120 deputados, confere a Lieberman uma posição chave para compor o gabinete ministerial. Tzipi Livni, líder do partido de centro-esquerda Kadima que ganhou o maior número de assentos na Knesset, não conseguiu formar uma coalizão, por insistir na aceitação pelos eventuais parceiros da solução de dois estados, Israel e Palestina, prontamente rejeitada por Lieberman, que acabou se associando com a extrema direita de Benjamin Netanyahu. Como ministro de Relações Exteriores, Lieberman continua em sua campanha para tornar os árabes em cidadãos de segunda classe e, eventualmente, expulsá-los do país. Mas três ministros do gabinete, membros do partido trabalhista, ameaçaram sair do governo caso essa proposta de “lei” seja aprovada. Mesmo se for rejeitada, a proposta assinala o estado de espírito radicalmente anti-palestino e contrário a uma solução negociada do conflito por parte de uma parcela significativa da população israelense.

Barack Obama, em seu discurso na universidade de Cairo, exigiu “honestidade” no diálogo entre os EUA e Israel. No dia 14 de junho, o primeiro ministro Benjamin Netanyahu posicionou-se em relação às exigências de Obama, pronunciando, pela primeira vez, as palavras “estado palestino”, ainda que com a restrição “desmilitarizado”. Quanto à devolução das áreas ocupadas por assentamentos que hoje abrigam 300.000 colonos, Netanyahu está sob grande pressão de seus seguidores e dos colonos na Cisjordânia que querem manter o controle sobre “Eretz Israel”, a terra prometida, na Bíblia, mesmo após o tratado de paz com o Egito, mediado por Jimmy Carter e que implicou na devolução de todas as terras do Sinai. O tratado de paz passou no parlamento com o apoio da oposição – o partido trabalhista – e contra a vontade dos seguidores do Likud, o que pode ser um precedente para Netanyahu.

O enviado especial de Obama, George Mitchell, ao visitar Jerusalém e Ramallah e, também, o presidente de Israel, Shimon Peres, após o discurso do presidente norteamericano, enfatizou o desejo dos EUA de que sejam reiniciadas e concluídas as negociações para a solução que prevê a existência de dois estados. O conflito entre Israel e os palestinos permeia toda a política externa dos EUA no Oriente Médio, onde seus aliados árabes apelam e pressionam constantemente para uma solução do conflito. Apesar de todas as manifestações negativas e contrárias, dos dois lados, observadores e analistas políticos avaliam que a maioria dos israelenses e dos palestinos quer agora uma solução com dois estados, um ao lado do outro, construindo uma nova realidade de paz e cooperação econômica, cultural e política entre os dois países. A resolução de negociar e de abandonar a conclamação para a luta armada é esperada como resultado do Congresso do Fatah, realizado na segunda quinzena de agosto de 2009, na cidade de Belém, a vinte quilômetros de Jerusalém.

Ironia da História: Entre todos os países árabes, são os palestinos o povo culturalmente e politicamente mais desenvolvido, sendo o único a ter realizado eleições livres e democráticas, o que os habilita a se tornarem aliados de Israel no processo de transformação do Oriente Médio.

Fontes bibliográficas

Dershovitz, A. (2005) Em defesa de Israel, editora Nobel, São Paulo
Rattner, H. (2009) Israel e a Paz no Oriente Médio, editora Nobel, São Paulo
Shehadeh, R. (2007) Palestinian Walks, Scribner, New York
Walzer, M. (2002) The four wars of Israel/Palestine, Dissent, New York
Revista “The Economist”, Agosto 1 – 2009; Agosto 8 – 14, 2009;
Julho – 25 – 31, 2009; Julho 11 – 17, 2009; Junho 20 – 26, 2009; Junho 13 – 19, 2009, Maio 30 – Junho 5, 2009.

São Paulo, agosto de 2009

06 de Novembro, 2009
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