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Sustentabilidade nas áreas de Mineração e Energia - entrevista com Fabio Abdala (fellow)




Confira abaixo a entrevista realizada com Fabio Abdala* (LEAD turma 9) que conversou com a equipe da ABDL sobre o projeto Juriti Sustentável da Alcoa e sua importância no desenvolvimento local com sustentabilidade.

Link do Projeto: http://www.alcoa.com/brazil/pt/juruti_info_page/Juruti_port.pdf[1]



1. Quais as principais atividades que você desenvolve na Alcoa?
Como consultor de sustentabilidade atuo nos projetos em que há convergência entre atividades de gestão ambiental (físico-biótico) com as de incentivos sócio-econômicos, sejam derivados do licenciamento de empreendimentos (como a conservação de lagos e a educação ambiental) ou de ações voluntárias de responsabilidade corporativa (como a implementação da Agenda 21 local). Atuo nas atividades de mineração e também apoio a área de energia, além de ações corporativas de sustentabilidade.

2. Qual o principal projeto em que você esta envolvido? Fale um pouco sobre ele
A Mina de Juruti ( http://www.alcoa.com/brazil/pt/custom_page/environment_juruti.asp) é meu principal foco. Estamos concluindo a implantação desta mina de bauxita e o principal projeto no qual estou envolvido é o Juruti Sustentável. Trata-se de um modelo de intervenção baseado na Agenda 21, e que, portanto, visa o desenvolvimento local com sustentabilidade, e inclui o seguinte tripé: 1) o Conselho Juruti Sustentável, um espaço permanente de diálogo e ação coletiva formada por gestores públicos, lideranças civis e empresariais; 2) o sistema de monitoramento das dinâmicas do desenvolvimento de Juruti e entorno, com base em indicadores de sustentabilidade; e 3) o Fundo Juruti Sustentável. Soma-se a esse tripé a Escola Juruti de Sustentabilidade que trabalha a formação de agentes de sustentabilidade local (governamental, civil e empresarial). Meu papel é o de coordenar a participação da Alcoa com os demais parceiros nestas iniciativas, que já estão a “pleno vapor”; aliás, o Fundo está com o 1º. Edital aberto para recebimento de cartas-proposta que pode ser acessado pela página do FUNBIO ( www.funbio.org.br).

3. Quais os principais desafios do projeto?
Há uma matriz de desafios. O desafio conjuntural de superação da crise financeira é inescapável, pois ela tende a conspirar contra os investimentos nas áreas de sustentabilidade. Dentes os desafios de longo prazo destacaria três vertentes: institucional, cultural e corporativa.
Do ponto de vista institucional diria que a sustentabilidade local está diretamente relacionada à escala e qualidade de bens públicos, normalmente providos por políticas públicas, e ao desenvolvimento institucional do estado e das comunidades locais. Hoje o estado é ausente e o capital social é limitado ou extremamente frágil, ou seja, temos um legado de exclusão socioeconômica, insegurança e infra-estruturas precárias que é preciso superar.
Do ponto de vista cultural estamos vivenciando certo “choque de civilizações” em Juruti, tanto considerando a inserção de um grande empreendimento mineral em um território de populações rurais e tradicionais, quanto considerando que todos (empresários, comunidades, governantes) estão desafiados pelos novos paradigmas da sustentabilidade; digo todos porque, por exemplo, a mandioca e o boi podem ser mais problemáticos socio e ambientalmente do que a mineração. O moderno e o tradicional conviverão durante décadas e precisam encontrar pontos de equilíbrio e cooperação que gerem benefícios mútuos, em meio a visões de mundo distintas. Posicionamentos “fundamentalistas”, seja empresarial ou de movimentos sociais, provavelmente não serão capazes de gerar uma equação social onde todas as partes possam ganhar.
Do ponto de vista corporativo, o desafio é o de estabelecer um novo padrão de operação baseado nos princípios de sustentabilidade em toda a cadeia de valor, fazendo da Mina de Juruti um fator de alavancagem do desenvolvimento regional.

4. Qual a importância da sua experiência como coordenador do GTA para o trabalho que realiza atualmente?
O período na Rede GTA foi de enorme aprendizado sobre as diversidades amazônicas; e ter atuado a partir de Brasília ajudou muito neste processo. Também passei a ter uma visão mais consistente da sociedade civil, das organizações locais, suas pautas e formas de conexão. Também participei de algumas iniciativas de formação de bens e políticas públicas, tais como educação e comunicação comunitárias, manejo de lagos, formação de lideranças, produção agroextrativista, formação de conselhos e redes de ação coletiva do local ao global. Esse legado é utilíssimo para o trabalho que realizo atualmente, sobretudo porque atuo justamente nas interfaces entre a empresa e os setores públicos, acadêmicos, civis e mídia nas pautas de sustentabilidade.

5. Como foi o processo de mudar de setor? O que foi fácil ou difícil?
Eu saí do setor governamental (Amapá e depois Ministério do Meio Ambiente) para o setor civil, e deste para o empresarial, entremeados pela academia. Para tanto, mudei de cidades algumas vezes. Então, mudanças fazem parte da minha história profissional e, em geral, sempre são difíceis. Passar do GTA para a Alcoa foi a mudança mais desafiadora, sem dúvida, porque me tirou do meu “quadrado” socioambiental mais convencional, e me fez repensar sobre o papel das empresas. Fácil é se apaixonar por este desafio de fazer o Juruti Sustentável, com tanta gente motivada e competente junto. Difícil é ter que lidar com os fundamentalistas, que perseguem impor sua única verdade, amém; isto é difícil porque sem diálogo e negociação não iremos muito longe, guerreando sempre para ganhar pouco ou nada.
Nossa geração também já descobriu que é preciso construir as pontes entre os setores. Como diriam no hip-hop, “nóis é ponte e atravessa”. Na Rede GTA eu já me dedicava às interações com o poder público e o setor empresarial, suas fundações e institutos, quando por exemplo, em 2004, criamos a Rede de Tecnologia Social em parceria com a Fundação BB, CEF, Ethos, Petrobras e outras empresas e organizações civis. Naquele momento já ficava evidente que a mudança para novos padrões de produção e consumo dependeria do engajamento de todos os setores, quer dizer, a sustentabilidade possível seria uma função tanto da ampliação da cidadania e políticas públicas quanto do engajamento do empresariado e das diversas cadeias de valor. Então, passar do setor civil para o empresarial que tenha um compromisso consistente com o ideário de sustentabilidade seria algo favorável e necessário. Diria até que na área de sustentabilidade haveria uma tendência de fluxo de talentos entre os setores.

6. Quais os principais desafios na transição para uma sociedade mais sustentável?
No Brasil temos uma agenda histórica relacionada a superação da pobreza e ampliação da cidadania, o que também significa mais e muitíssimo melhor Estado. Adicionam-se também os fatores que estão evidentes: ordenamento do território e em particular melhor organizar as cidades, gerar renda com a floresta em pé e conservá-la, gestão dos recursos hídricos e do carbono, combinar múltiplas matrizes de energia com a maior eficiência possível, consumir produtos de origem legal. E a base de tudo isso são as pessoas, o capital humano, e daí diria que o desafio fundamental é cultural, é a geração e gestão dos conhecimentos orientados para a sustentabilidade.

7. Qual foi a importância do LEAD na sua formação?
As vivências interculturais, os treinamentos em moderação de grupos, as análises sistêmicas e os trabalhos de campo sobre temas-chave de sustentabilidade, como gestão da água e urbanização, a interação com um grupo seleto de lideranças do diversos setores com as quais mantenho relações duradouras, tudo isso foi e tem sido fundamental em minha formação.


* Fabio Abdala é sociólogo e Consultor de Sustentabilidade e Projetos Sociais Alcoa Mina Juruti.

19 de Junho, 2009
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