Login:
Senha:
  |  
Fale Conosco  |   Mapa do site  |  
Busca:
  ABDL
  LEAD
  Outros Programas
  Recursos
  Comunidade ABDL
  Rio+20



Inovação, produtividade e desenvolvimento

Em termos metodológicos e epistemológicos, focalizando o todo, o conjunto dos elementos, antes de se fixar numa só parte ou num só elemento. A partir da premissa de que o todo é diferente - maior ou menor - da soma dos elementos. Como decorrência, procuraremos colocar os conceitos analisados dentro de seu contexto histórico, político, social e econômico. Um outro ponto da metodologia refere-se à recusa de qualquer determinismo: seja econômico, cultural, racial ou religiso. Em oposição à visão determinista, postulamos que toda realidade é produto social: os homens fazem sua história, embora não em condições totalmente livres. Portanto, tudo o que aqui existe não deve ser concebido como fatalidade, mas pode ser desconstruído e reconstruído. Desse tipo de análise se deriva a visão de importância dos atores sociais: seus interesses materiais e simbólicos, suas motivações, paixões e valores.

Em resumo, somos contra qualquer reducionismo, embora o ecnonomicismo domina hoje em dia a opinião pública e as políticas do governo e das empresas. Fiéis às premissas anteriormente apontadas, indagamos quem está por trás das políticas do governo e das empresas, quais os interesses e o manto ideológico que procura defendê-los. Feita esta introdução metodológica sumária, eu gostaria de discutir três conceitos básicos que hoje estão presentes em todas as manifestações de homens públicos do governo, das empresas e da academia: a competividade, a produtividade e a sua relação com o desenvolvimento.
A competitividade é considerada uma lei da natureza, própria ao ser humano e à sociedade. Ora, isto contradiz as evidências de toda história anterior à emergência no sistema capitalista no século XVII e XVIII. A idéia da competitividade como função fundamental do convívio humano foi reforçada pela teoria de Darwin sobre a seleção natural das espécies, que implicaria que somente os mais competitivos seriam os mais aptos e, portanto, capacitados a sobreviver. Ora, a maior parte da história da humanidade nos ensina que a sobrevivência foi sempre decorrência da cooperação, de apoio mútuo e de solidariedade entre os membros das diversas espécies.

A insistência na necessidade de competir faz parte do ideário e da prática da acumulação capitalista que afirma as vantagens do progresso técnico e do crescimento da riqueza material através da competitividade. Fiéis às nossas premissas, perguntaríamos: o que acontece com os outros elementos do sistema, ou aqueles que, por um ou outro motivo, não forem capazes de competir e acabam sendo eliminados ou excluídos do mercado de trabalho e do acesso às oportunidades de possuir e usufruir de bens materiais e simbólicos. Referimo-nos aos sem-teto, sem-terra, aos milhões de desempregados e que paulatinamente acabam sendo marginalizados em nossa sociedade. Isto contradiz o espírito da Declaração dos Direitos Humanos.

Entretanto, desde a primeira infância, na escola, na empresa e na vida social em geral, o indivíduo é instigado a competir, a considerar o outro como um adversário e não como um companheiro de colaboração e de solidariedade.
Estreitamente associado com o conceito de competitividade encontramos a produtividade. Produtividade entendida como a capacidade de elevar o rendimento do trabalho através do apoio a um ou mais fatores ou insumos. Realmente, sabemos que aumentos de capital, de terra, de fertilizantes, de água na irrigação, contribuem para elevar o volume do produto. Entretanto, vários economistas advertem como a lei de rendimentos decrescentes.

A partir de um certo momento, o acréscimo em um determinado fator, não havendo acompanhamento dos outros fatores, esbarra em dificuldades estruturais para elevar a produtividade. Mas, é fato sobejamente conhecido que a produção tem se elevado nas últimas décadas a partir do aumento dos insumos: capital, mão de obra e tecnologia. Por isso, nosso produto interno bruto hoje em dia é muito superior ao que fora duas ou três décadas atrás.

Novamente, aplicando a visão sistêmica do conjunto, somos obrigados a indagar: o que é feito com o acréscimo do produto ou do lucro? Há três possibilidades de fazer reverter pelo menos uma parte desse lucro para a sociedade: primeiro, elevando os salários proporcionalmente ao aumento da produtividade; dois, reduzindo os preços das mercadorias ou serviços, o que elevaria o poder de compra dos consumidores; terceiro, a possibilidade de reinvestir a maior parte desses lucros na expansão da produção.

O que acontece em nosso país? As empresas não elevam os salários, não baixam os preços e não investem. Para onde vai o excedente? Não é segredo para os economistas nem para os políticos que boa parte desse excedente vai para especulação financeira dentro e fora do país e, portanto, não beneficia a economia.
Essas considerações nos levam à análise do conceito de desenvolvimento, geralmente confundido com crescimento econômico. Ora, o crescimento econômico é uma condição necessária, mas não suficiente para o desenvolvimento, sobretudo o chamado "desenvolvimento sustentável".

Para que haja desenvolvimento sustentável, é necessário que toda a população participe do processo, como produtores e como consumidores. Crescimento econômico que enriquece os detentores do capital e empobrece a massa dos trabalhadores vai contra o objetivo de desenvolvimento, que deve ser também social, cultural, político e ambiental. O nosso sistema de produção e distribuição se mostra "insustentável" sob todos esses critérios.

thomaz: Como explicar o pouco impacto das inovações tecnológicas havidas nas últimas décadas na melhoria das condições de vida da população dos pobres e marginalizados?


Rattner:As inovações tecnológicas em nossa sociedade, embora elevem a produtividade e eventualmente a competitividade das empresas, eliminam mão de obra que não poderá ser novamente aproveitada devido à falta de capacitação e de atualização. Portanto, para vingar uma política de inovações tecnológicas, é fundamental que seja acompanhada por medidas que ampliem as oportunidades de todos os cidadãos: oportunidades de acesso à educação, a serviços de saúde, a cultura, ao lazer e a um meio ambiente sadio. Desenvolvimento seria então a ampliação das oportunidades para todos num regime de cooperação e solidariedade, conforme disse Amartya Sen, economista premiado com o Nobel, "desenvolvimento é poder contar com meus amigos".
mcj: Existe alguma forma do estado tentar forçar uma melhor distribuição de renda, junto ao empresariado ?


Rattner:Essa é a questão central das políticas públicas. Para redistribuir renda, como todos os políticos prometem em período eleitoral, seria necessário um conjunto de medidas para restringir os lucros e melhorar os salários. Por exemplo, elevar os impostos, o que esbarra na resistência dos empresários e da classe média. Outra medida seria elevar os gastos com políticas sociais, melhorar os níveis da educação, da saúde e de serviços à população, como habitação e transporte público. Onde encontrar os recursos para essas políticas sociais, se o governo assumiu o compromisso do superávit fiscal para honrar o serviço das dívidas interna e externa?
thomaz: Quais os limites dessa situação que polariza e marginaliza contingentes crescentes da população, tanto nos países ricos quanto nos países "emergentes"?


Rattner: Nos últimos anos, tem-se enfatizado cada vez mais o conceito de sustentabilidade. Por quê? Porque a situação atual é considerada insustentável. Do ponto de vista social, porque gera exclusão, desestruturação das comunidades e do próprio indivíduo que é eliminado do processo produtivo. Em conseqüência, aumenta a delinqüência, a criminalidade e outros fenômenos de comportamento a-social. Do ponto de vista político, concentra o poder cada vez mais nas mãos de poucos em detrimento dos processos democráticos. As elites fazem eleger seus candidatos preferidos, os apóiam no período pré-eleitoral e orientam a mídia na mesma direção. Uma vez eleitos, esses candidatos tentarão retribuir sob forma de leis e diretrizes que protegem os interesses de seus financiadores. Parece, portanto, um círculo vicioso.

A insustentabilidade na área cultural é caracterizada pela padronização dos gostos e preferências, impondo aos consumidores produtos e serviços, sobretudo na área de entretenimento, nem sempre de melhor qualidade e de menor custo. Do ponto de vista ambiental, sabe-se que os processos utilizados no agronegócio, na mineração e na produção industrial procuram maximizar os lucros, minimizando os custos. Em conseqüência, temos florestas devastadas, águas de rios e lagoas contaminadas, extensas áreas desertificadas, o que representa um custo para as atuais e para as futuras gerações, embora o documento das Nações Unidas, quando fala de desenvolvimento sustentável, exige que transmitamos às futuras gerações o meio ambiente tal como nós o recebemos, e não deteriorado.
Essa análise não pretende encerrar uma mensagem fatalista, como se não houvesse saída dos problemas atuais. Em retrospectiva histórica, a sociedade humana avançou nos últimos dois séculos de regimes absolutistas, que desprezavam os direitos humanos, para uma maior abertura em relação aos direitos e à participação de todos os membros da sociedade nas decisões que afetam seu destino. Se o sistema atual, por um lado, reforça a tendência à concentração do poder econômico, político e militar, por outro lado, também criou facilidades para comunicação, a interação e a cooperação em nível local, nacional e internacional. Daí inferimos que "um outro mundo é possível", a condição que mobilizamos nossos conhecimentos e nossa consciência, e encontremos motivação suficiente para agir, produzindo mudanças.

22 de Setembro, 2004
imprimir

Parceiros
Assine o Boletim ABDL fornecendo seu e-mail