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CUBA: O último país socialista
Vale a pena chegar em Cuba, ou melhor, na sua capital Havana, para ver a Lua transformar-se em um enorme disco vermelho e inchar até iluminar a Ilha antes de mergulhar no mar. Então quando o último turista deixa sob protesto a Praça da Catedral, Havana torna-se mágica. Deserta com palacetes com as típicas colunas cubanas.
Em suas ruas, os habitantes da cidade mais bela do Caribe abrem as portas de suas casas. Permitem assim aos visitantes entrever ora numa monumental mansão, carregada de história, meio arruinada e coberta por mato, ora um secreto e sombrio jardim, onde podemos ver muitas crianças brincando.
Regra geral é o padrão de vida. Os salários obedecem, seja qual for a profissão, às variações entre os 20 e 30 dólares por mês. Mas a realidade de vida lá é muito diferente, pois o custo de vida para um cubano é muito baixo. O aluguel é simbólico, coisa de um dólar, e todos tem direito a um conjunto de gêneros alimentícios e de higiene pessoal. As carências materiais são grandes, sejam de uso doméstico ou pessoal. Muitas delas, perceptíveis o tempo todo e em toda parte. Outras, capazes de fazer sabonete ou pasta dentes tornarem-se bens preciosos.
Há pouca mendicância, não há infância perambulando, não há gente esquálida, não há prostituição infantil. Os trabalhadores do açúcar e do tabaco, os lavradores, os trabalhadores urbanos não qualificados tiveram, todos, a ascensão representada por maior facilidade de moradia, por ensino, saúde pública e parte da alimentação. Nada foi feito de parecido com isso, nem de longe, na América Latina.
Com essas realizações, o sistema de salários e a repressão à “posse burguesa” de bens e de dinheiro, a Revolução Cubana extinguiu a desigualdade econômica. Os que antes estavam nas camadas mais baixas subiram, mas sem chegar ao que chamamos de classe média, ou mesmo classe média baixa. Os que estiveram nestes níveis, ou neles estariam sem a uniformização salarial, foram descidos. É nítido, então, que a justiça da igualdade produziu, nas circunstâncias cubanas, o nivelamento social da pobreza. Não há pobreza degradante, mas a população é pobre, sim, seja avaliada por padrões burgueses ou socialistas.
A igualdade em tais níveis e, além disso, combinando a justiça para uma parte da população e a injustiça com outra, é uma contrariedade aos propósitos originais dos revolucionários cubanos. Em todos os casos, está inscrita entre os grandes êxitos, não só ou não mais dos revolucionários de Fidel Castro, mas já do comunismo cubano. Um regime que tenta uma saída outra vez original, com sacrifício de vários dos seus alicerces ideológicos e êxito menos ou mais comprovados. Entre eles, a equidade econômica da população. A necessidade de controlar nova e inesperada ameaça de colapso foi mais forte.
A crise da União Soviética pegou Cuba desprevenida para enfrentar sozinha o seu futuro, como se houvesse acreditado que a ajuda soviética não teria fim. A solução adotada foi, até mesmo por lá, a sempre citada abertura. Cuba quebrou o seu próprio “bloqueio”, que mantinha à distância os capitais privados e a quase totalidade dos turistas atraídos pelo Caribe.
A abertura cubana se fez por três vias simultâneas. Uma delas é o abandono do monopólio do Estado sobre as empresas. Capitais privados são atraídos para o investimento em Cuba, mas sempre tendo o Estado como sócio majoritário no empreendimento. Em determinadas sociedades, o Estado detém a propriedade e o capital privado movimenta a empresa.
Na teoria, as relações trabalhistas nas empresas mistas são as mesmas das empresas oficiais. A prática recente embora, já mostra que trabalhar para mistas pode ser mais exaustivo, mas rende maiores compensações. E isso resulta na formação de um segmento social que vai alcançando melhor nível econômico individual e familiar. O que é ótimo, mas, do ponto de vista do regime cubano, é um abalo forte na equidade salarial e social.
O turismo é a segunda via da abertura. Nas atividades ligadas a ele, ainda que secundariamente, a remuneração extra do trabalho é a melhor em Cuba, o grande atrativo nacional. Como no mundo afora, os turistas a tudo retribuem com propinas. Em dólar. No dólar das compras em lojas para estrangeiros, das compras de produtos importados legais ou contrabandeados, ou seja, com dólar é possível comprar tudo.
Com sempre os economistas de plantão miram num objetivo e dão quase sempre no inesperado. A abertura turística planejada pelos economistas do governo está levando a deslocamentos sociais com efeitos complexos. O médico e o professor, por exemplo, têm salários em peso equivalente a 30 dólares e aprenderam pelo menos uma língua estrangeira. È claro que correm para serviços a turistas, não importa muito se o trabalho é oficial ou autônomo, porque lhes renderá várias vezes o salário anterior. Podem igualá-lo em um só dia com turistas, já faltam professores e o número de médicos também está diminuindo na Cuba que tinha uns e outros em abundância. E, efeito mais triste atração pelo dólar da abertura turística, volta com ímpeto o turismo sexual e, portanto, a prostituição, atrações simbólicas da noturna Havana pré-revolução.
A terceira forma da abertura cubana é a permissão para a entrada de dólares mantidos pelos exilados para seus familiares. São dólares que pouco retiram de quem manda, 100 ou 200 nos Estados Unidos, Espanha, México e até mesmo no Brasil não apertam o mês de nenhum “gusano” (como são chamados nos Estados Unidos cubanos exilados) e mudam a vida de quem recebe. Com um efeito mais amplo: o dólar, hoje, é moeda corrente em Havana. O turista praticamente não vê dinheiro cubano, compra em dólar e recebe o troco em dólar. Cuba está dolarizada e endolarizando, com parte do dinheiro que vem dos Estados Unidos que planeja seu aniquilamento há 42 anos.
Nesses 42 anos, a vida tem sido dura para os cubanos. Não só nos aspectos econômicos. O regime cubano levou longe demais a sua recusa às liberdades civis. A abertura produz reflexos, já se pode ver em Havana jovens com cabelos longos, que antes podiam ser caçados pelo regime como homossexuais ou rebeldes sem causa.
Mas a liberalização não chaga e nem se aproxima, do direito a liberdade de expressão e de discordância crítica construtiva ao regime ou ao governo. E, assunto precisa de maior observação, em Cuba não há jornal e nem televisão. O “Granma” é um diário de proselitismo, com artigos que amplificam a voz oficial ou oficiosa, e sem notícia factual, ou seja é um jornal de propaganda do governo. Os dois canais de TVs seguem a mesma linha do Granma.
Mas a grande riqueza realmente de Cuba é seu povo, musical e alegre sempre disposta a conversar, e não é raro encontrar um cubano que fale mais de um idioma. Esse povo é delicioso, culto e muito amigável.
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